Mudanças climáticas elevam custo do crédito e desafiam seguro rural no Brasil
Eventos climáticos extremos, como secas e chuvas excessivas, tornam o crédito rural mais caro e limitam o acesso ao seguro no agronegócio brasileiro. Ferramentas regulatórias, como o Zarc, e políticas públicas, como o Plano Safra, precisam evoluir para proteger produtores. O uso de tecnologia e de novos modelos de seguro, aliados a uma política de gestão de riscos, é essencial nessa transição.
Por Mónica Ríos · 26 de ago. de 2026, 06:37

As mudanças climáticas vêm modificando de forma profunda a dinâmica financeira do agronegócio brasileiro. Nos últimos anos, secas mais prolongadas, chuvas intensas e flutuações inesperadas de temperatura têm encarecido o crédito rural e tornado o acesso ao seguro mais restrito, criando novos desafios para produtores de todo o país.
Contexto: clima adverso e risco financeiro
A intensificação dos eventos extremos não impacta apenas a produção no campo, mas obriga o sistema financeiro a reavaliar o risco agrícola. Segundo Pedro Loyola, coordenador do Observatório do Seguro Rural da FGV, o debate atual sobre seguro rural está diretamente ligado à segurança econômica e alimentar do Brasil. "Crédito sem seguro é quase algo irresponsável", afirma Loyola, destacando que a gestão de risco é essencial para garantir a sustentabilidade financeira do setor.
A conexão entre clima e fluxo de caixa ficou ainda mais evidente nos dados do Banco Central, que apontam aumento de temperatura em 4.300 dos 5.572 municípios brasileiros entre 2000-2004 e 2019-2023, além de redução do volume de chuvas em 4.326 cidades. Apenas 558 municípios mais afetados por queda de chuva concentravam R$ 122,5 bilhões em crédito rural em junho de 2024, evidenciando o quanto o setor está exposto a perdas climáticas.
Zoneamento e limitações para produtores
Ferramentas como o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) tornaram-se importantes para guiar políticas públicas e práticas do setor. A última atualização do Zarc, que agora contempla dados de 1992 a 2022, já mostra mudanças nas janelas de plantio em cerca de 59% dos municípios brasileiros avaliados. Em alguns locais, a janela adequada para plantio vem se reduzindo, dificultando o acesso ao crédito e ao seguro por parte dos produtores e limitando a possibilidade de realizar uma segunda safra.
Com a oferta de crédito dependendo do cumprimento das condições impostas pelo Zarc, produtores que não conseguem plantar dentro das novas janelas correm risco de ficar sem financiamento e desprotegidos diante dos eventos extremos.
Seguro rural sob pressão e políticas públicas
O aumento dos eventos extremos eleva a sinistralidade das seguradoras, encarecendo os prêmios e restringindo ainda mais o mercado de seguros. Pesquisas do Climate Policy Initiative indicam que, apesar de avanços, a oferta de seguro rural ainda é limitada e depende fortemente de políticas públicas como o PSR, Proagro e Garantia-Safra.
Entre 2021 e 2023, o crédito rural alinhado a objetivos climáticos representou 58% do financiamento climático para uso da terra no Brasil, segundo o CPI. Contudo, a parcela voltada especificamente à adaptação e mitigação de riscos ainda é pequena. O relatório defende maior uso do Plano Safra para fomentar práticas agrícolas sustentáveis, com critérios diferenciados para sistemas de produção de baixo carbono e restrição de crédito para áreas com desmatamento ilegal.
Boas práticas para adaptação e gestão de risco
Entre as soluções apontadas, estão o escalonamento do plantio para diluir o risco de perdas em uma única janela, o uso intensivo de tecnologia (big data, sensoriamento remoto, satélites) e a atualização constante dos parâmetros do zoneamento agrícola. Exemplos internacionais sugerem que o seguro paramétrico—que realiza indenizações automáticas com base em índices objetivos—poderia agilizar pagamentos e diminuir custos para produtores brasileiros.
Priscila Souza, gerente do CPI, ressalta que o Brasil ainda carece de um mecanismo nacional que aumente o suporte conforme a vulnerabilidade climática. Para enfrentar esse cenário, Loyola defende a combinação de políticas amplas de seguro rural, incentivo a boas práticas agrícolas e integração de gestão de risco no crédito. "O seguro não apenas protege a produção: ele garante que o produtor mantenha acesso ao crédito e possa planejar o próximo ciclo mesmo após uma perda significativa", conclui o especialista.
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